segunda-feira, 31 de março de 2008

Tragédia brasileira

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,Conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos,uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagoumédico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.Misael não queria escandalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não feznada disso: mudou de casa.Viveram três anos assim.Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos,Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, RuaClapp,outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato,Inválidos...Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e deinteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída emdecubito dorsal, vestida de organdi azul.

(Manuel Bandeira)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Desencanto (Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento...
de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue.
Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias.
Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.

terça-feira, 25 de março de 2008

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar…

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.


No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar…

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar…


E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar…

Estava perto do céu,

Estava longe do mar…


E como um anjo pendeu

As asas para voar…

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar…


As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par…

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar…


ALPHONSUS DE GUIMARAENS

sábado, 22 de março de 2008

Eu queria trazer-te uns versos




Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Sua palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

Mario Quintana

sexta-feira, 21 de março de 2008

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 20 de março de 2008

Meu coração tardou


Meu coração tardou.
Meu coraçãoTalvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou.
Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito

Finge-se meu.
Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração

Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.

Fernando Pessoa

NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo: Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira
Tarde demais o conheci, por fim;
cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o.
William Shakespeare
Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.
William Shakespeare

Quero, um dia, dizer às pessoas que nada foi em vão...Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena.
Mário Quintana

quarta-feira, 19 de março de 2008

Dois

Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
Sempre...
A se olharem...
Pensar talvez:"Paralelos que se encontram no infinito..."
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

(Pablo Neruda)